Vamos parar de dourar a pílula. Fingir que as vitórias choradas contra São Paulo e Mirassol são sintomas de uma reviravolta genial é aceitar a mediocridade que tentam nos vender. O Grêmio atual não está evoluindo; está sobrevivendo a si mesmo. A gangorra de resultados recentes é o retrato fiel de um clube blindado por discursos protocolares, mas exposto a uma desorganização crônica que nasce nos gabinetes presidenciais e deságua, sem filtro, no gramado da Arena.

O comandante português parece preso em um labirinto de convicções próprias. Enquanto o torcedor enxerga a urgência de um time que precisa de verticalidade e coragem, Castro insiste em engessar a equipe. Sua obsessão por um controle burocrático de espaço e por escolhas contestáveis no meio-campo que engolem o ímpeto criativo e transformam o time em um deserto de ideias transformou assistir ao Grêmio em um teste de paciência. Castro treina o Grêmio dos seus sonhos na prancheta, mas escala o Grêmio da realidade em campo: um time limitado, previsível e que só pontua quando decide rasgar o manual do técnico e apelar para a pura corda bamba do abafa.
Se o colapso tático e a letargia da diretoria ainda não afundaram o barco de vez, a culpa é de quem resolveu chamar a responsabilidade no peito. O campo tem sua própria justiça.
Porque quando o presidente se cala, os dirigentes batem cabeça e o treinador se perde nos próprios nós conceituais, o Grêmio recorre à sua última e mais poderosa linha de defesa a sua gente. A maior força deste clube nunca esteve nas planilhas da direção ou nos conceitos importados da casamata. Ela está na garganta calejada de quem apoia sob chuva, na fé cega de quem sabe que a camisa entorta varal e no alento da arquibancada que se recusa a ver o gigante aceitar o papel de coadjuvante.
O Grêmio é ruim hoje, e aceitar isso é o primeiro passo para a cura. Mas enquanto a torcida for o oxigênio desse clube, nenhuma teimosia ou omissão será capaz de matar o Imortal.