Crescer nos anos 70, sendo gremista, foi uma experiência de resiliência e determinação. Recordo-me de muitas vezes estar com meu pai, o Véio Vilson, nas arquibancadas frias do Olímpico e ver o time fracassar, e ouvir do “Véio”: “no ano que vem nós ganhamos”. Só que o ano que vem chegava e, mais uma vez, o título era adiado para o ano que vem.
Até aquela tarde de domingo, naquele setembro de 77, a maior alegria do guri Fernando de 10 anos tinha sido a nossa vitória de 3×1, no Beira Rio, conhecido como o Grenal do Zequinha. Me recordo que ouvi no rádio esse jogo, junto com meu pai. Depois do jogo fiquei tão feliz que tive febre e não dormi a noite. Até então isso tinha sido a minha maior alegria que, conscientemente, havia vivido com o meu Grêmio.

Bom, voltemos ao domingo, 25 de setembro de 1977.
Me lembro quando acordei e a primeira coisa que meu pai me disse foi: “Vai ser hoje!”
Tinha algo diferente na voz dele, algo que não parecia com a desculpa de sempre, que seria no ano que vem. Havia uma certeza, uma absoluta certeza.
Almoçamos em casa, cedo, e cedo fomos para o Velho Casarão. Havia um clima diferente, aquela certeza que eu nunca havia vivido.
A entrada foi confusa, muita gente.
O jogo começa, Grenal pegado, o Grêmio precisava ganhar para ser campeão. Caso empatasse ou perdesse, teria outro Grenal, mas aí no estádio deles.
O Grêmio ataca e, pênalti! Ia ser sim esse ano, não no ano que vem. Tarciso, o Flecha Negra, corre para a bola e…perde o pênalti.
Meu pai murchou no meu lado, vi que perdeu o brilho no olhar. Lá se foi aquela certeza. Seria no ano que vem?
42 minutos do primeiro tempo, um entrevero no meio campo, bola roubada pelo Vitor Hugo, que coloca para Tadeu Ricci, que deixa ela passar para o Iura que enfia a bola pela esquerda da área onde o baiano André Catimba chuta e…GOOOOOLLLLL!!!!!!!!
O estádio explodiu, meu pai chorava no meu lado que nem viu o pulo do André Catimba, mas eu vi, sim eu fiquei parado, perplexo, sem entender, que não reagi imediatamente a comemorar. O André pula e para reto no ar, e como previu Sir Isaac Newton, a Lei da Gravidade atuou sobre ele, e o nosso centroavante se “esborrachou “no chão e dali não levantou, sendo substituído pela lenda Alcindo.
O 2º tempo foi sofrido, eles tiveram algumas chances, mas não fizeram o gol de empate.
O jogo chegando ao final e a torcida começou a pular o fosso, e começou a se acumular na pista atlética, eu queria ir (eu tinha 10), mas meu pai disse não, mas tenho certeza que se eu não estivesse com ele, ele teria ido. Chegou num momento que a torcida não aguentou mais, acho que o juiz apitou uma falta ou coisa assim, e o povo gremista invadiu o gramado, não tinha mais nada que tirasse o nosso título, ninguém conseguiria acabar com aquela festa, não seria mais no ano que vem, estava sendo e sempre será para mim O GRENAL MAIS IMPORTANTE DA HISTÓRIA!


Fernando Junqueira nasceu num 10 de março de 1967 e no dia 12 de março o Grêmio estava em campo contra o Santos de Pelé no Olímpico. Conta a história da família que o pai estava ao lado do berço do bebê Fernando, com um rádio (daqueles grandes da época), que se colocava no ouvido e gritou muito alto quando o Alcindo fez o nosso gol e que nesse momento Fernando levantou os dois braços e chorou de emoção e desde então nunca mais parou de se emocionar com as cores preto, azul e branco.
É palestrante e consultor de empresas, diretor da Fernando Junqueira Desenvolvimento Empresarial e autor dos livros: AVENTURAS IMORTAIS I e II e também do O que fazer para RH dar lucro.