A DECISÃO DA LIBERTADORES DE 1983 CONTRA O PEÑAROL EM MONTEVIDÉU



E vamos para mais uma semana sem jogo do Grêmio, e como prometido aqui, vamos relembrar algumas aventuras memoráveis acompanhando o Tricolor.

Eu estive na 1a partida da Final de 1983, em Montevidéu.


Enfim depois de 80 anos o Grêmio chegava a sua primeira final de libertadores. Eu na época com 16 anos havia fundado com meu primo e com um amigo, Luiz Carlos Dal Pai, a torcida Garra Tricolor. Havia ido a todos os jogos daquela Libertadores e, é óbvio, não deixaria de ir à final.

Saímos de Porto Alegre, da frente do Largo dos Campeões, às 23h do dia 21 de julho de 1983, diz-se que eram mais de 80 ônibus saindo dali, não sei se esse era o número correto, mas que era um mar de gremistas, ah isso era!

O primeiro evento dessa viagem aconteceu logo na saída dentro do túnel da Conceição, onde um maluco que estava nas poltronas da frente do ônibus, com metade do corpo para fora da janela, resolveu soltar um foguete dentro do túnel. O foguete (não sei se ricocheteou nas paredes do túnel), mas entrou por uma das janelas de trás do ônibus, quase acertando outro amigo e estourando dentro do porta bagagens acima das poltronas, do lado esquerdo do ônibus. Um barulho ensurdecedor…

Foto: Arquivos do Grêmio

O resto da viagem, durante a madrugada, transcorreu normalmente.

Chegamos por volta das 11h00 do dia 22 de julho, dia do jogo nas portas de Montevidéu, nós, os mais jovens, fomos para cima do teto do ônibus e me lembro de ver uma fila enorme de ônibus de Porto Alegre, com pessoas nas janelas e sobre os veículos, alucinadas, com bandeiras e cantando alegremente.

Os ônibus ficaram parados ali por um bom tempo, e nesse tempo, do outro lado da estrada um carro com um senhor e duas senhoras parou e mostraram uma bandeira do Peñarol, o temível adversário a ser batido, atual campeão da Libertadores. Uma das senhoras começou a gritar: Peñarol, Peñarol, Peñarol, e nós, como se houvéssemos ensaiado, gritamos num coro uníssono: “El palo de mi padre na concha de su madre!”, não sei se isso estava certo em espanhol, mas que elas ficaram com os rostos ruborizados e o senhor ligou o carro e rapidamente saiu dali, foi o que aconteceu.

Nessa época viajava quase sem dinheiro, e tínhamos que vender adesivos para subsidiar almoço, janta, enfim o que fosse necessário. Fomos para a Praça Independência em Montevidéu, onde conseguimos vender todos os nossos adesivos para torcedores do Nacional e conseguimos comprar um “pollo” frito que comemos ali na praça mesmo, acompanhado de 1 litro de “pomelo”, foi minha única refeição naquele dia.

Fomos para o estádio Centenário muito cedo e na entrada os policiais proibiram a entrada das taquaras, onde colocávamos as bandeiras, enormes bandeiras. Então nos organizamos em dois grupos, um que entrou com as bandeiras, faixas e cordas para amarrar as faixas (cordas que eram longas), e dentro do estádio, que não é coberto, jogamos as cordas para o outro grupo, que estava ainda do lado de fora com as taquaras, que foram içadas dessa forma para dentro do estádio.

Tivemos que colocar as bandeiras nas taquaras abaixados, para a polícia não ver, e quando o Grêmio entrou em campo, aquela multidão de gremistas, que lotava toda a parte de cima de uma Tribuna (que é como eles chamam os locais dentro do Estádio Centenário), atirando papel picado e rolos de papel (tradicional nas Libertadores antigas), e nós das organizadas começamos a erguer aquelas enormes bandeiras, que estavam deitadas no chão, formando uma barreira de bandeiras gigantescas. Foi um espetáculo tão bonito que tenho certeza que vi torcedores do Peñarol aplaudindo.

Agência RBS / Agencia RBS

O jogo foi uma batalha onde o Grêmio mostrou toda a garra que o caracterizava, e aos 15 minutos o carioca Tita abriu o placar, fazendo enlouquecer a torcida. Aos 35 o grande centroavante do Peñarol e da seleção uruguaia, Fernando Morena, empatou a partida.

Na saída encasquetei que iria levar a bandeira do Uruguai que estava hasteada na frente do estádio, pedi para um grupo de amigos segurar o mastro para que eu pudesse escala-lo e pegar a bandeira. Quando consegui tirar a bandeira, notei que o mastro estava balançando muito, olhei para baixo e não vi ninguém de camisa tricolor, apenas um bando de caras com camisas pretas e amarelas, cai do mastro e tomei uns bem dados chutes e socos, mas consegui sair dali com um pedacinho da bandeira na mão, troféu de guerra.

Nosso ônibus depois foi encurralado, apedrejado e incendiado, mas conseguiu seguir adiante, porém não conseguiu rodar muito e parou devido ao incêndio que atingiu alguma coisa vital. Por sorte conseguimos entrar em outro ônibus, e, portanto teríamos todo o nosso retorno para Porto Alegre dentro de um ônibus com a capacidade excedida ao dobro. Deitamos no chão, e assim saímos de Montevidéu, cansados, doídos, mas felizes.

Mas nossa aventura não terminou ai, quando chegamos num lugar, já no Brasil, chamado Quinta de Rio Grande, próximo a cidade de Rio Grande, esse ônibus fundiu o motor, era um lugar no meio do nada, quase todos com fome e cansados, lembrem-se que minha última refeição havia sido um “pollo” frito, no dia anterior ao meio dia.

Foto: Afonso Alves/ Agencia RBS

Achávamos que éramos o último ônibus do comboio, devido aos problemas que tivemos na saída de Montevidéu, e na época não existia celular, é bom lembrar disso, portanto estávamos isolados e sem comunicação. Saímos caminhando pela estrada em direção a Rio Grande, caminhamos por aproximadamente 2 horas, alguns carros pararam para dar carona, colocamos as pessoas mais velhas, mulheres e crianças nesses carros e seguimos caminhando num grupo de aproximadamente 40 pessoas que sobraram. Após essas 2 horas de caminhada, vimos uma Estancia cheia de pessoas, que parecia ser uma festa, entramos e pedimos ao proprietário se ele tinha água e um telefone para ligarmos para o Departamento Eurico Lara (Departamento do Grêmio que controlava as torcidas organizadas). O proprietário era gremista e estava duplamente feliz, uma pelo empate e a outra porque a festa era do casamento da filha. Não só nos deu água, como mandou baixar alguns espetos de ovelha e cerveja à vontade, quase morri de tanto comer, arrancávamos a carne dos espetos com a mão. Ninguém se lembrou de lavar a mão antes de comer.

Após isso ele nos levou num caminhão até um posto da polícia rodoviária que havia em Rio Grande, onde conseguimos ligar para o Departamento Eurico Lara e ficamos sabendo que havia outro ônibus que estava mais atrasado que o nosso, pois esse ônibus também havia estragado. Quando esse ônibus passou, entramos e enfim rumamos para Porto Alegre.

Era para chegarmos no dia 26 as 12h00 no Olímpico, chegamos a 1h30 do dia 27, cansados, felizes e prontos para sermos campeões da América na semana seguinte.

Essa história, e mais outras de gremistas que já fizeram alguma loucura para acompanhar o nosso Grêmio, está no livro AVENTURAS IMORTAIS.

Link para o livro

https://loja.uiclap.com/titulo/ua12669




Deixe um comentário