No futebol, a memória costuma ser curta para os gols sofridos, mas é de elefante para o dinheiro prometido. O Grêmio, com a prudência de quem conhece os ventos frios do Sul, olha agora para o Rio de Janeiro e não vê apenas o Cristo Redentor ou as praias; vê uma conta de R$ 20.439.672,06 pendurada no balcão de General Severiano.
É uma cifra precisa, com centavos de rigor matemático, mas que carrega o peso de uma ironia clássica do nosso mercado da bola.

Tudo começou com o aperto de mãos. De um lado, a promessa; do outro, o talento. O lateral Cuiabano subiu o mapa, trocou o mate pelo biscoito Globo e virou protagonista. Levantou taças, cruzou bolas precisas e ajudou a colocar faixas no peito dos alvinegros. Enquanto o Botafogo celebrava a glória da Libertadores e do Brasileirão, nos corredores da Arena o barulho era outro: o som de um boleto vencendo sem o “bipe” da confirmação bancária.
A situação de Nathan Fernandes foi o oposto, uma daquelas apostas que o destino resolveu boicotar com lesões. Mas, no fim das contas, para o departamento financeiro, o rendimento em campo é poesia; o que importa é a prosa do contrato assinado.
Agora, o Botafogo entrou naquele estágio que, no futebol moderno, chamamos elegantemente de “Recuperação Judicial” o famoso “devo, não nego, pago quando o juiz disser como”. O Grêmio, que esperava o dinheiro para ajeitar a casa e quem sabe buscar um novo reforço, viu-se sentado em uma cadeira desconfortável na fila do tribunal. É o segundo da fila, logo atrás do Santos, em um pódio de credores que ninguém gostaria de subir.
O torcedor, esse ser movido a paixão, muitas vezes ignora o balanço patrimonial. Mas a verdade é que, entre um drible de Cuiabano e um gol de placa, existe uma calculadora ligada. O Grêmio agora joga um campeonato diferente, onde o campo é de papel ofício e o juiz usa toga.
No Rio, o Botafogo tenta se reerguer das cinzas das dívidas antigas. No Sul, o Tricolor faz as contas do mês. No fim, a crônica do futebol brasileiro segue seu roteiro de sempre: o espetáculo é lindo, as taças brilham na galeria, mas, lá no fundo, alguém sempre está perguntando: “E o pix dos 20 milhões, cai quando?”