Como ficaremos sem jogos do Grêmio por pelo menos 1 mês, vou usar este espaço para contar aos mais jovens e relembrar os jovens a mais tempo, algumas das partidas mais emblemáticas do nosso Tricolor.
Irei começar com a Batalha de La Plata, em 1983. Quem é gremista já deve ter ouvido sobre esse jogo.

Torcedores do gremistas voltando da Argentina em 83, sem nenhum vidro e no frio. FOTO: Acervo de Rodrigo Brito
Pois bem, eu estava lá.
No primeiro livro AVENTURAS IMORTAIS contei a história do primeiro jogo da final em Montevidéu, mas para chegar lá o Grêmio teve que escrever uma das tantas páginas heroicas de sua imortal história, o jogo contra o Estudiantes de La Plata no velho estádio Jorge Luis Hirsch (o atual foi remodelado).
Em 1983 a Libertadores era raiz, participavam apenas o campeão e vice de cada país, os grupos iniciais eram formados pelo confronto entre países, no grupo do Grêmio (vice campeão brasileiro de 1982), ficaram Flamengo (campeão de 1982) e os bolivianos Bolivar e Blooming. E mais, se classificava apenas o campeão do grupo.

José Doval / Agencia RBS
Na segunda fase se formavam 2 triangulares entre os campeões dos 5 grupos mais o campeão da Libertadores do ano anterior, também se classificando somente o líder do grupo para a final contra o vencedor do outro grupo.
O Grêmio ficou na segunda fase com o América de Cali/Col e o Estudiantes de La Plata/ARG.
No dia 7 de julho de 1983 saímos do Olímpico, ao meio dia em direção a Buenos Aires e de lá próximo ao horário do jogo iríamos direto para La Plata, que fica a 58 KM da Capital Argentina.
A viagem transcorreu normal, tirando o frio, e chegamos a Buenos Aires no meio da manhã do dia 8 de julho, dia do jogo, e ai as coisas começaram a acontecer.
Ocorre que no ano anterior a Argentina entrou em guerra com a Inglaterra pelas ilhas Malvinas (Falklands como são chamadas pelos ingleses), e após a perda da guerra pela Argentina, os aviões ingleses que iam para as ilhas, paravam para abastecer em…isso mesmo, em Porto Alegre, terra do Grêmio, e isso os argentinos não perdoavam. E lá estávamos nos, habitantes da cidade de Porto Alegre em terras que não nos queriam bem.

Capa do jornal Folha da Tarde
Obviamente que, para piorar, levamos uma bandeira do Grêmio que era igual a bandeira do Reino Unido, mudando apenas o vermelho para o preto, e com essa bandeira fomos para frente da Casa Rosada gritar FALKLANDS, FALKLANDS…Sinceramente, não sei o que tínhamos na cabeça, mas misture juventude, rivalidade entre países, futebol e um bocado de bebida alcoólica e o resultado só pode ser esse.
No final da tarde fomos para o estádio, e na época não tinha essas coisas de comboio, com policiais acompanhando o percurso, nada disso. Era o ônibus e nós.
A chegada ao estádio não teve nada de diferente do que qualquer jogo como forasteiro, pedras, xingamentos, cantos, enfim…o tradicional de sempre.
O estádio tinha suas arquibancadas de madeira, era uma pocilga e estava lotado, e começamos a ver que os argentinos não estavam ali só pelo Estudiantes, estavam ali pela Argentina e pelo fato de que para eles, nós brasileiros e principalmente porto alegrenses éramos inimigos (lembra da história dos aviões que contei logo acima? Pois é).
Uma fúria que eu, com 16 anos, nunca havia experimentado e que até hoje não voltei a ver ou sentir.
Durante o primeiro tempo do jogo a torcida deles disparava foguetes, morteiros e até sinalizadores contra nós, tanto que, antes do intervalo, alguns que foram de avião e carro saíram do estádio. Existia ódio contra nós e é claro que nossa única resposta era tremular aquela bandeira parecida com a bandeira do Reino Unido.
Tiramos algumas faixas e sentamos embaixo para nos protegermos do que voava contra nós, e em campo o pau pegando também (mas isso todos já sabem a história).
No intervalo eu estava sentado ao lado de um colega de torcida e olhamos para a torcida deles, e tinha um cara, enorme, cabeludo (isso nós também éramos), com uma faca ou canivete enorme na mão. Esse cara pegava esse canivete e apontava para nós e logo em seguida fazia aquele gesto de passar no pescoço. Era de assustar.
Nós todos tínhamos a certeza que não sairíamos vivos dali.

Foto: Estudiantes / Divulgação / CP
Quando o jogo acabou, ficamos mais um tempo dentro do estádio, e quando saímos a polícia fez um corredor para irmos para o ônibus, mas esse corredor mais atrapalhou, por nos deixar maneados, do que nos ajudou. A torcida deles por trás dos guardas nos batia com tudo, desde socos até pedras. Um senhor que estava na minha frente recebeu uma tijolada no rosto e perdeu uns bons dentes. Eu acho que tive sorte, ou por ser baixo fiquei menos acessível, mas tomei muitas taquaradas e batidas com pedaços de pau. Como estava frio, estava bem agasalhado e isso ajudou a amortecer as pancadas.
Nosso ônibus estava todo destruído, o que tinha dentro foi roubado e voltamos da Argentina para cá sem nenhum vidro, em pleno inverno.
Com certeza, nunca mais na minha vida eu senti medo dentro de um estádio como senti naquele dia, mas valeu cada minuto, cada pancada, pois ter vivido aquela Libertadores de 1983 foi algo maravilhoso que só os poucos que estavam lá, naquelas arquibancadas de madeira, conseguirão entender.
Essa história, e mais outras, estão no livro AVENTURAS IMORTAIS II.
Link para o livro: https://loja.uiclap.com/titulo/ua24038

Fernando Junqueira nasceu num 10 de março de 1967 e no dia 12 de março o Grêmio estava em campo contra o Santos de Pelé no Olímpico. Conta a história da família que o pai estava ao lado do berço do bebê Fernando, com um rádio (daqueles grandes da época), que se colocava no ouvido e gritou muito alto quando o Alcindo fez o nosso gol e que nesse momento Fernando levantou os dois braços e chorou de emoção e desde então nunca mais parou de se emocionar com as cores preto, azul e branco.
É palestrante e consultor de empresas, diretor da Fernando Junqueira Desenvolvimento Empresarial e autor dos livros: AVENTURAS IMORTAIS I e II e também do O que fazer para RH dar lucro.