DE NOVO RENATO: ODORICO SE AGARRA AO ÍDOLO PARA TENTAR SALVAR O GRÊMIO — E A PRÓPRIA GESTÃO

Lá vamos nós de novo.

Luís Castro foi demitido. O projeto milionário fracassou, o Grêmio está brigando lá embaixo e Odorico Roman, depois de tantos erros em poucos meses, recorre à solução que o Grêmio conhece de cor:

Renato Portaluppi. Mais uma vez.

E antes que alguém confunda as coisas: isso não é uma crítica à história de Renato no Grêmio.

Renato é um dos maiores ídolos da história do clube. Talvez o maior. O problema é justamente outro: o Grêmio parece incapaz de deixar Renato ser apenas ídolo. Precisa transformar Renato em salvador toda vez que o futebol entra em crise.

Foi assim com Romildo.

Foi assim com Guerra.

E agora acontece com Odorico.

Odorico chegou prometendo mudança. Em entrevistas, chegou a afastar a possibilidade de buscar Renato. Apostou em Luís Castro, gastou milhões, reformulou o elenco e tentou vender a ideia de um Grêmio diferente.

FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

Deu tudo errado.

E bastaram alguns meses para a convicção desaparecer.

Depois de tanta cagada, tanta contratação que não funcionou e tanto dinheiro jogado fora, Odorico ficou perdido e fez aquilo que dirigente gremista faz quando não sabe mais para onde correr: chamou Renato.

É confortável.

Renato conhece o clube. Conhece o vestiário. Tem identificação absurda com a torcida. Mobiliza o ambiente. Tira pressão da direção e joga os holofotes imediatamente para cima dele.

Se ganhar dois ou três jogos, muda o clima.

E Odorico ganha tempo.

É exatamente aí que mora o perigo.

Porque Renato pode até chegar e salvar o Grêmio dessa situação. Eu não duvido disso. O problema é achar que isso significa que o Grêmio encontrou novamente seu caminho.

Não encontrou.

O Grêmio continua preso no mesmo ciclo.

Contrata um treinador. Não funciona. Tenta outro. Dá errado. A crise aumenta.

E no final de quase todo caminho aparece Renato.

O clube não cria uma filosofia de futebol. Não estabelece uma forma de jogar que sobreviva aos treinadores. Não constrói um departamento capaz de escolher técnicos e jogadores dentro de uma ideia.

Quando a tentativa de fazer algo diferente dá errado, em vez de corrigir o projeto, o Grêmio joga o projeto inteiro no lixo e volta correndo para aquilo que já conhece.

Esse é outro erro.

Luís Castro ter fracassado não significa que tentar mudar estava errado.

Significa que Luís Castro deu errado.

Se você compra um carro ruim, não significa que precisa voltar a andar de carroça. Significa que precisa escolher melhor o próximo carro.

O Grêmio deveria entender por que errou em Castro, por que gastou tão mal, por que entregou tanto poder ao treinador e qual futebol pretende construir daqui para frente.

Mas é muito mais fácil chamar Renato.

E existe outro lado dessa história que pouca gente gosta de admitir:

a torcida também alimenta esse ciclo.

Renato sai e uma parte da torcida continua pedindo Renato.

Outro treinador perde três partidas e já aparece Renato.

O time entra em crise e Renato vira assunto.

Parece que, para uma parcela dos gremistas, todo problema do Grêmio tem a mesma solução.

E memória de torcedor às vezes é curta.

Na última passagem, Renato já era contestado e ouvia vaias. Seu trabalho estava desgastado. Depois vieram experiências fora do Grêmio que também não tiveram o resultado esperado.

Mas basta o Grêmio entrar novamente em crise para tudo isso desaparecer.

Renato vira o salvador da pátria outra vez.

Isso não é idolatria saudável.

Você pode amar Renato pelo que ele representa e, ao mesmo tempo, entender que o Grêmio precisa aprender a existir sem depender dele.

Aliás, esse eterno retorno também começa a ser injusto com o próprio Renato.

Toda vez que o clube está pegando fogo, alguém telefona para ele.

Renato chega carregando nas costas a obrigação de salvar a temporada, salvar o time, acalmar a torcida e, de quebra, salvar o dirigente que montou a bagunça.

Uma hora isso pode cobrar um preço até da relação dele com o clube.

Porque Renato está colocando sua própria história em jogo cada vez que aceita voltar para um Grêmio em crise.

Se der certo, vira herói novamente.

Se der errado, é o ídolo que acaba sendo vaiado por problemas que começaram muito antes de sua chegada.

E talvez seja justamente por respeitar tanto a história de Renato que o Grêmio deveria parar de tratá-lo como bombeiro particular.

Odorico precisa assumir os próprios erros.

Foi sua gestão que apostou em Castro. Foi sua gestão que gastou milhões. Foi sua gestão que montou esse elenco. Foi sua gestão que chegou a esse ponto.

Renato não pode servir de escudo para tudo isso.

E a torcida também precisa parar de acreditar que o futuro do Grêmio obrigatoriamente passa pelo seu maior ídolo.

Renato faz parte da história mais bonita do clube.

Mas o Grêmio precisa parar de procurar seu futuro olhando sempre para o passado.

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