Coluna| R$ 140 milhões em erros: o início trágico da gestão Odorico no Grêmio

FOTO: AMANDA FERRONATO/GRÊMIO FBPA

É difícil achar outra palavra para definir o começo da gestão Odorico Roman no Grêmio: trágico.

E não é só porque o time joga mal ou está brigando lá embaixo. O mais assustador é olhar para quanto dinheiro um clube já quebrado conseguiu comprometer em poucos meses e o pouco que recebeu de volta.

Odorico chegou prometendo uma grande reformulação. E ela realmente aconteceu.

Mais de dez jogadores deixaram o Grêmio. Para conseguir fazer essa limpa, o clube precisou negociar rescisões, fazer acordos e parcelar valores. Ou seja: até hoje o Grêmio ainda coloca dinheiro na conta de jogadores que nem estão mais aqui.

Tudo bem. Se aqueles jogadores não serviam, precisava mudar.

O problema é mandar embora jogador ruim, continuar pagando por ele e gastar ainda mais dinheiro trazendo outro que também não resolve.

E foi isso que aconteceu.

Juan Nardoni custou cerca de R$ 41,7 milhões. Tetê, R$ 39,6 milhões. José Enamorado, R$ 16,2 milhões. Leonel Pérez, R$ 14,7 milhões.

Bota na ponta do lápis: mais de R$ 110 milhões em apenas quatro jogadores.

E cadê esse dinheiro dentro de campo?

FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

Nardoni, Tetê e Enamorado estão muito longe de entregar o que custaram. Pérez é um caso ainda mais difícil de explicar: o Grêmio gastou quase R$ 15 milhões nele e, poucos meses depois, já emprestou o jogador.

Então o Grêmio fez uma limpa, ficou com parcelas dos jogadores que mandou embora e depois abriu o cofre novamente para uma reformulação que também não funcionou.

E a direção continuou apostando.

Filip Krovinović chegou com contrato longo, até o fim de 2028. Jovane Cabral foi outra aposta recente. O cabo-verdiano chegou cercado de expectativa e, até agora, também não conseguiu dar a resposta esperada.

Podem melhorar? Claro que podem.

Mas quantas vezes um Grêmio endividado pode apostar milhões esperando que amanhã dê certo?

E ainda tem Luís Castro.

O treinador e sua comissão custavam cerca de R$ 2 milhões por mês. O contrato ia até o fim de 2027. Castro foi demitido, mas a conta não foi embora junto: o Grêmio ainda deve desembolsar perto de R$ 30 milhões pelo restante do compromisso.

Somando somente Castro, Nardoni, Tetê, Pérez e Enamorado, já estamos falando de mais de R$ 140 milhões.

E esse número nem conta toda a história.

Não estão aí as parcelas dos jogadores dispensados, salários, luvas e outros compromissos assumidos na reformulação, nem todas as contratações feitas depois.

É muito dinheiro.

E, para mim, é aí que aparece o maior erro de Odorico:

o Grêmio praticamente entregou o cartão de crédito do clube na mão de Luís Castro.

Castro pediu reforço? Ganhou.

Quis mudar o elenco? Mudaram.

Pediu jogadores para determinadas funções, inclusive mais volantes? Foram buscar.

Castro pedia e a direção ia lá e gastava.

Só esqueceram de uma coisa: o dinheiro não era de Luís Castro. Era do Grêmio.

Treinador tem que indicar jogador. Tem que participar da montagem do elenco. Tem todo direito de dizer: “preciso de um volante”, “preciso de um ponta”, “esse jogador me interessa”.

Mas treinador não pode ser dono do cartão de crédito.

Se Castro pede um jogador de R$ 40 milhões, alguém no Grêmio precisa saber se aquele cara vale R$ 40 milhões.

E alguém precisa ter conhecimento de futebol e peito para dizer:

“Não. Esse negócio não serve para o Grêmio.”

É para isso que existe presidente e departamento de futebol.

Porque treinador pensa no time que quer colocar em campo.

A direção precisa pensar no Grêmio que vai ficar quando esse treinador não estiver mais aqui.

E agora estamos vendo exatamente por quê.

Luís Castro recebeu reforços, teve investimento, ganhou uma reformulação praticamente sob medida e entregou um time desorganizado, sem evolução e brigando para não cair.

Fracassou e foi embora.

Só que Castro segue a vida.

O Grêmio fica pagando o treinador que demitiu, jogadores que dispensou, contratações caras que não deram resposta e até um reforço de quase R$ 15 milhões que já foi emprestado.

Essa é a parte mais assustadora.

Odorico herdou um Grêmio quebrado? Herdou.

Pegou dívidas e erros de Romildo e Guerra? Pegou.

Mas ele foi eleito justamente para parar esse ciclo.

Não para fazer uma limpa, parcelar a saída de um monte de jogador e, meses depois, encher novamente a folha e comprometer mais milhões com outra leva que também não resolveu o problema.

Não dá mais para colocar tudo na conta de quem estava aqui antes.

Essa reformulação é da gestão Odorico.

Luís Castro foi escolha dessa gestão.

Nardoni, Tetê, Enamorado e Pérez foram investimentos dessa gestão.

E os contratos e apostas que continuam chegando também são responsabilidade dessa gestão.

O Grêmio precisava gastar melhor porque não tinha dinheiro para errar.

E conseguiu fazer justamente o contrário.

Gastou para mandar jogador embora.

Gastou uma fortuna para trazer outros.

Gastou milhões com um treinador e montou o elenco que ele pediu.

Agora gasta para mandar esse treinador embora.

E depois de toda essa dinheirama, o Grêmio continua brigando para não cair.

É isso que torna o começo de Odorico tão preocupante.

Não é um erro.

É uma sequência de erros caros.

Luís Castro fracassou. A primeira grande reformulação fracassou. Os principais investimentos fracassaram até aqui.

E o início da gestão Odorico, infelizmente, também é um fracasso.

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