
É difícil achar outra palavra para definir o começo da gestão Odorico Roman no Grêmio: trágico.
E não é só porque o time joga mal ou está brigando lá embaixo. O mais assustador é olhar para quanto dinheiro um clube já quebrado conseguiu comprometer em poucos meses e o pouco que recebeu de volta.
Odorico chegou prometendo uma grande reformulação. E ela realmente aconteceu.
Mais de dez jogadores deixaram o Grêmio. Para conseguir fazer essa limpa, o clube precisou negociar rescisões, fazer acordos e parcelar valores. Ou seja: até hoje o Grêmio ainda coloca dinheiro na conta de jogadores que nem estão mais aqui.
Tudo bem. Se aqueles jogadores não serviam, precisava mudar.
O problema é mandar embora jogador ruim, continuar pagando por ele e gastar ainda mais dinheiro trazendo outro que também não resolve.
E foi isso que aconteceu.
Juan Nardoni custou cerca de R$ 41,7 milhões. Tetê, R$ 39,6 milhões. José Enamorado, R$ 16,2 milhões. Leonel Pérez, R$ 14,7 milhões.
Bota na ponta do lápis: mais de R$ 110 milhões em apenas quatro jogadores.
E cadê esse dinheiro dentro de campo?

Nardoni, Tetê e Enamorado estão muito longe de entregar o que custaram. Pérez é um caso ainda mais difícil de explicar: o Grêmio gastou quase R$ 15 milhões nele e, poucos meses depois, já emprestou o jogador.
Então o Grêmio fez uma limpa, ficou com parcelas dos jogadores que mandou embora e depois abriu o cofre novamente para uma reformulação que também não funcionou.
E a direção continuou apostando.
Filip Krovinović chegou com contrato longo, até o fim de 2028. Jovane Cabral foi outra aposta recente. O cabo-verdiano chegou cercado de expectativa e, até agora, também não conseguiu dar a resposta esperada.
Podem melhorar? Claro que podem.
Mas quantas vezes um Grêmio endividado pode apostar milhões esperando que amanhã dê certo?
E ainda tem Luís Castro.
O treinador e sua comissão custavam cerca de R$ 2 milhões por mês. O contrato ia até o fim de 2027. Castro foi demitido, mas a conta não foi embora junto: o Grêmio ainda deve desembolsar perto de R$ 30 milhões pelo restante do compromisso.
Somando somente Castro, Nardoni, Tetê, Pérez e Enamorado, já estamos falando de mais de R$ 140 milhões.
E esse número nem conta toda a história.
Não estão aí as parcelas dos jogadores dispensados, salários, luvas e outros compromissos assumidos na reformulação, nem todas as contratações feitas depois.
É muito dinheiro.
E, para mim, é aí que aparece o maior erro de Odorico:
o Grêmio praticamente entregou o cartão de crédito do clube na mão de Luís Castro.
Castro pediu reforço? Ganhou.
Quis mudar o elenco? Mudaram.
Pediu jogadores para determinadas funções, inclusive mais volantes? Foram buscar.
Castro pedia e a direção ia lá e gastava.
Só esqueceram de uma coisa: o dinheiro não era de Luís Castro. Era do Grêmio.
Treinador tem que indicar jogador. Tem que participar da montagem do elenco. Tem todo direito de dizer: “preciso de um volante”, “preciso de um ponta”, “esse jogador me interessa”.
Mas treinador não pode ser dono do cartão de crédito.
Se Castro pede um jogador de R$ 40 milhões, alguém no Grêmio precisa saber se aquele cara vale R$ 40 milhões.
E alguém precisa ter conhecimento de futebol e peito para dizer:
“Não. Esse negócio não serve para o Grêmio.”
É para isso que existe presidente e departamento de futebol.
Porque treinador pensa no time que quer colocar em campo.
A direção precisa pensar no Grêmio que vai ficar quando esse treinador não estiver mais aqui.
E agora estamos vendo exatamente por quê.
Luís Castro recebeu reforços, teve investimento, ganhou uma reformulação praticamente sob medida e entregou um time desorganizado, sem evolução e brigando para não cair.
Fracassou e foi embora.
Só que Castro segue a vida.
O Grêmio fica pagando o treinador que demitiu, jogadores que dispensou, contratações caras que não deram resposta e até um reforço de quase R$ 15 milhões que já foi emprestado.
Essa é a parte mais assustadora.
Odorico herdou um Grêmio quebrado? Herdou.
Pegou dívidas e erros de Romildo e Guerra? Pegou.
Mas ele foi eleito justamente para parar esse ciclo.
Não para fazer uma limpa, parcelar a saída de um monte de jogador e, meses depois, encher novamente a folha e comprometer mais milhões com outra leva que também não resolveu o problema.
Não dá mais para colocar tudo na conta de quem estava aqui antes.
Essa reformulação é da gestão Odorico.
Luís Castro foi escolha dessa gestão.
Nardoni, Tetê, Enamorado e Pérez foram investimentos dessa gestão.
E os contratos e apostas que continuam chegando também são responsabilidade dessa gestão.
O Grêmio precisava gastar melhor porque não tinha dinheiro para errar.
E conseguiu fazer justamente o contrário.
Gastou para mandar jogador embora.
Gastou uma fortuna para trazer outros.
Gastou milhões com um treinador e montou o elenco que ele pediu.
Agora gasta para mandar esse treinador embora.
E depois de toda essa dinheirama, o Grêmio continua brigando para não cair.
É isso que torna o começo de Odorico tão preocupante.
Não é um erro.
É uma sequência de erros caros.
Luís Castro fracassou. A primeira grande reformulação fracassou. Os principais investimentos fracassaram até aqui.
E o início da gestão Odorico, infelizmente, também é um fracasso.